Companhias aéreas concorrentes se oferecem para ‘resgatar’ passageiros da Aigle Azur

Todos os voos para o Brasil (Campinas-Viracopos), Mali e Portugal foram cancelados subitamente na quinta-feira (5). Área francesa está à beira da falência. Aeronave é um Airbus A332 da companhia francesa Aigle Azur, mas é operado sob responsabilidade da Azul Linhas Aéreas no Brasil
Reprodução/EPTV
As companhias Air France, Vueling e Transavia se disponibilizaram a oferecer “tarifas preferenciais” para os clientes afetados pela crise da Aigle Azur, que cancelou todos os voos previstos a partir desta sexta-feira (6) à noite. As anulações acontecem desde agosto e se generalizaram nesta semana, depois que a empresa entrou com pedido de recuperação judicial, na segunda-feira (3).
Milhares de passageiros brasileiros são atingidos, já que os trajetos entre Paris e São Paulo (Viracopos) também foram suspensos. Sem dinheiro, a Aigle Azur afirma que não conseguirá indenizar nem sequer repatriar os viajantes que já haviam utilizado a passagem de ida para algum dos destinos que eram oferecidos, a maioria na África. Os últimos 44 voos partiram nesta sexta-feira do aeroporto de Orly, num clima de desolação tanto de funcionários, quanto de passageiros.
“Minha mãe está bloqueada no Mali e uma passagem nova custa € 2.816”, afirma Madina, um cliente que foi ao aeroporto para tentar encontrar uma solução para repatriar a mãe, sem sucesso.
“Se você tem um voo de volta depois de 6 de setembro, de qualquer aeroporto de origem, este voo está cancelado. Você deverá adquirir uma outra passagem de volta”, diz a mensagem que milhares de passageiros receberam. “Milhares de pessoas estão bloqueadas hoje, principalmente na Argélia e no Mali”, declarou o secretário de Estado dos Transportes, Jean-Baptiste Djebbari.
Diante dos transtornos, o governo francês interveio para negociar, junto a outras companhias, alternativas para levar para casa milhares de clientes da Aigle Azur. A prioridade é viabilizar o retorno de passageiros bloqueados na Argélia e em Portugal.
Paris também se envolveu nas negociações para que um comprador da empresa concretize a aquisição, possível até segunda-feira, conforme o prazo estabelecido pela justiça comercial. O ministro da Economia da França, Bruno Le Maire, afirmou que existe “uma oferta principal” de compra, mas não deu mais detalhes. “Quero que dê certo e não quero enfraquecer as discussões que estão em curso”, justificou.
Segundo a imprensa francesa, os compradores potenciais são Gérard Houa, um acionista minoritário da Aigle Azur, a Air France ou ainda Lionel Guérin e Philippe Micouleau, ex-dirigentes da Air France.
Voos transatlânticos low-cost: aposta arriscada
Os problemas financeiros da companhia aérea já se arrastam desde o início do ano e levaram até à devolução de alguns aviões. A escalada de desentendimentos entre acionistas resultou na “desconfiança e deterioração do clima social” na Aigle Azur, e motivou agora o pedido de insolvência, admitiu a companhia num comunicado interno, divulgado pela imprensa francesa.
A empresa é uma das mais antigas da França: fundada em 1946, transportou quase dois milhões de passageiros em 2018, com faturamento de € 300 milhões no período. O que a levou à beira da falência em tão pouco tempo foi a aposta nos voos low-cost, inclusive nos trajetos transatlânticos, como ao Brasil. “Passamos a fazer Paris-Berlim por € 30, mas o nosso modelo econômico era baseado em tarifas de € 300 para ir para a Argélia”, revelou um piloto ao jornal Libération.
Outra companhia europeia, a Norwegian, passa por problemas semelhantes. A Air France chegou a se seduzir pelo desafio, com a Joon – que fechou apenas um ano depois de iniciar o serviço a baixo custo e fazia o trajeto Paris-Fortaleza.
A Aigle Azur tem 11 aviões e 1.150 funcionários, que acompanham com apreensão o desenrolar dos acontecimentos. Na quarta-feira (4), o diretor-presidente Frantz Yvelin pediu demissão.