Tamo junto no setembro amarelo e ao longo de todos os outros dias

Pediram-me um pequeno artigo sobre prevenção ao suicídio. Passava longe de mim a ideia de escrever sobre isso e, de repente, cá estou eu, sentada escrevendo essas linhas. Perdi o sono, acordei ainda escuro, madrugada alta, e só consegui levantar-me da cama quando os pássaros começaram a cantar. Pensei: é isso. A escuridão se vai e o canto dos pássaros prenuncia a possibilidade de um novo dia. Soa meio piegas, mas é isso. Prevenir o suicídio é possibilitar que o atravessamento da escuridão seja possível, possibilitar que os ponteiros do relógio sigam seu movimento, que o tempo corra além da dor.

Poderia escrever o texto abordando as estatísticas que mostram o crescimento da taxa de suicídio, principalmente entre adolescentes. Mas decidi guiar a pena por outros caminhos, pela dor que dilacera e se congela no momento do ato suicida. Aí, nesse instante o tempo para e não se apresenta saída.

Esses dias li que um grupo evangélico já evitou mais de 80 suicídios em uma ponte de Natal, desde que passou a acampar por lá justamente com esse objetivo. O grupo se chama “Sentinela de Cristo”. E chamo a atenção para a palavra “Sentinela” que segundo o Houaiss é aquele que vigia, que vela. Acrescento o que ouço desse significante: aquele que está a postos. Nesse caso, a postos no momento no qual a dor está insuportável.

Nesse momento eles estão lá, a postos, disponíveis para resgatar, ouvir, fazer passar o segundo crucial, esticar o tempo até que o relógio possa ser ajustado e a dor encontre vias de escoamento. Desde a ponte Newton Navarro (onde fica o acampamento) esses sujeitos tornam-se pontes para uma saída possível. Do abismo que se apresentava, a uma nova rota que se abre.

Foi publicada uma nota sobre um segurança do metrô que evitou que um adolescente se jogasse nos trilhos. A reportagem trazia a foto do segurança no chão, sentado ao lado do garoto. Graças a esse olhar atento, o menino encontrou outras trilhas.

Aqui há duas considerações importantes a fazer: a primeira é sobre a disponibilidade para o outro. Estar disponível para escutar o semelhante é mais do que abrir espaço na agenda do consultório, ou sair das redes sociais e ir tomar aquele café com o amigo. Esses atos não são irrelevantes, mas não bastam. Quanto não ouvimos de parentes e amigos de vítimas “Mas eu falei com o fulano ontem”, “Ela até me ajudou arrumar as coisas para o piquenique” ou “Havíamos reservado a passagem para a viagem”!

A disponibilidade é construída ao longo do tempo, refiro-me aqui não ao tempo cronológico, mas ao tempo kairós, tempo interno, tempo compartilhado no “um pouco de mim também é seu, não tudo, mas um pouco. Quando precisar, esse pouco vai ser todo por um momento e eu vou estar ali, inteira para você.”

O segundo ponto é a comunidade. Conheci uma escola na qual houve um caso de tentativa de suicídio. Foi impressionante o quanto esse episódio fez questão para toda a comunidade escolar. E foram muito além dos questionamentos usuais: “O que não estamos escutando de nossos alunos?”, “Em que podemos ficar mais atentos”. Toda a comunidade se mobilizou. Pequenas implicâncias entre as pessoas sumiram. Toda a família do aluno foi chamada a participar de diversas atividades escolares, os colegas se dispuseram a escutar seu amigo, curso de prevenção ao suicídio foi integrado à grade curricular e oferecido a toda a comunidade (pais e funcionários) que compareceu em grande número. Diversas famílias abriram as portas de suas casas e acolheram o sofrimento, puseram-se a escutar. Falou-se, falou-se e falou-se ainda um pouco mais sobre isso. E os fantasmas sobre o episódio e o sujeito foram caindo, aos poucos o tempo que foi destinado à escuta da dor e do sofrimento deu lugar ao verdadeiro acolhimento, o relógio passou a andar marcado pelas atividades cotidianas, esse sujeito com sua história estava novamente integrado à comunidade e a vida seguia seu rumo.

Meu ponto é que sozinhos não vamos conseguir. Todos os horários que eu abrir no consultório não serão suficientes, todo o amor familiar não será suficiente. Somos no divã e além dele, somos no condomínio em que vivemos e além dele, somos no pequeno grupo de amigos e além dele. Há que unir esforços: que venham evangélicos, umbandistas, judeus, psicanalistas, psicólogos, médicos, grupos como o Centro de Valorização da Vida (CVV), freiras, padres, manicures, cobradores de ônibus, professores, seguranças do metrô… que venham todos! Precisamos de toda a comunidade para escutar e acolher o semelhante.
E quanto a mim: I’ll be there for you.


Fernanda Zacharewicz é psicanalista e editora. Atuou como professora universitária. Doutora em Psicologia Social pela PUC/SP. Decidiu seguir suas grandes paixões: o consultório e a Aller, editora de psicanálise, da qual é sócia.